Me peguei pensando nessa frase pulsante e insistente,
enquanto abria uma bandejinha de maminha para retirar as gorduras dos filés, e
deixá-los no tempero.
A vida já não é mais a mesma quando dentro da sua geladeira
existem cores pintadas em frutas e em alimentos integrais; Quando seus esmaltes
não duram quatro dias seguidos pela atividade cotidiana de cozinhar e sim,
lavar louças.
A vida já não é mais a mesma quando te empurra para marcar
reuniões com a secretaria de ensino municipal, da cidade que nem é a sua de
nascença; Quando você deve assinar exatamente da mesma forma os 15 campos
assinalados com um x, junto de uma rubrica.
A vida já não é mais a mesma pela felicidade de chegar
quarta-feira e ser dia de feirinha no supermercado, onde os melhores produtos
orgânicos chegam, caixas e mais caixas coloridas, seladas; Quando a carteira
parece um buraco negro com uma escada, e cada degrau é um cartão em que você
precisa dividir suas finanças.
A vida já não é mais a mesma quando os livros que te faz
brilhar os olhos não são mais aqueles de auto-ajuda, mas sim de histórias
marcantes, bem como o seu entusiasmo em querer que o mundo também tenha o
prazer de vivenciá-las.
A vida já não é mais a mesma quando o tamanho da sua mala
vai diminuindo, e as viagens aumentando; Não é mais a mesma quando aquele
grande esforço em equilibrar todo mundo contente em uma bandeja já não é mais
prioridade, e sim os seus sentimentos e os valores dele, acompanhados de quem
realmente faz questão de estar presente na sua caminhada.
A vida já não é a mesma quando os seus planos parecem te
assustar, mas que te fazem vivo e repleto de energia para batalhar na
realização deles.
A vida já não é a mesma quando se deve abrir horários na
rotina para eventuais consultas médicas, exames e convênios; Já não é a mesma
quando entrar numa academia passa a ser motivo de prazer, uma fuga à saúde em
meio às tarefas exaustivas.
É, a vida já não é a mesma quando o seu coração palpita, e
até explana palestras pessoais internas sobre relacionamentos e suas
experiências; Quando você sente saudade do que viveu, quando corre de medo do
que viveu, quando sonha com o que está por vir e quando procura se reenergizar
dia após dia para ser merecedor do que o futuro reserva.
A vida já não é mais a mesma quando o passeio ideal é o de
gastar dinheiro com presentes para seus pais, ainda que a procura seja em
shoppings lotados de pessoas e luzes estonteantes; Quando você observa que seus
pais já não têm mais 30 anos de idade.
A vida já não é mais a mesma quando se deve tirar um
passaporte, carteira de trabalho, tirar o copo molhado para não manchar o móvel
de madeira, tirar o cinzeiro e escondê-lo, tirar a etiqueta da roupa que
pinica, tirar o lixo da cozinha e do banheiro, tirar o xixi do cachorro, o
recibo de pagamento, segunda via de cartão de identificação da faculdade,
cutícula, e se sobrar tempo um sarro do seu cabelo bagunçado.
A vida já não é mais a mesma quando você arranca seu cabelo
bagunçado de tantas dúvidas e preocupações; Quando o e-mail do seu chefe não
está nem aí para seus cabelos e continua piscando na sua caixa de entrada.
A vida já não é a mesma quando se troca uma balada por meias
felpudas; Quando meditar é muito mais importante do que gastar minutos a fio no
telefone.
A vida já não é mais a mesma quando você vê uma beleza rara na
letra de uma música que fala de amor ou nos rabiscos de uma criança, quando ouve
um senhor de idade numa clínica geriátrica, quando vê um girassol e compra pra
enfeitar qualquer lugar.
A vida já
não é a mesma, mas é a melhor que eu poderia querer...com o peito aberto,
proteção de luz, e muita felicidade.
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